"Radioamadorismo: Ainda há quem ligue o rádio para falar com pessoas do outro lado do mundo"

22-03-2016 00:05

 Radioamadorismo: Ainda há quem ligue o rádio para falar com pessoas do outro lado do mundo 

Radioamadorismo: Ainda há quem ligue o rádio para falar com pessoas do outro lado do mundo

Numa sociedade onde as redes sociais ganham cada vez mais preponderância, ainda há quem use as ondas hertzianas para estabelecer comunicações com pessoas de todo o mundo, como é o caso de uma associação de radioamadorismo em Coimbra.

Numa cúpula desativada do Observatório da universidade funciona a Associação de Radioamadores de Coimbra, mais conhecida nas ondas hertzianas por Charlie Sierra Five Alpha Romeo Charlie. Isto porque no éter da rádio fala-se em código próprio e cada pessoa ou estação tem um indicativo.

"França Um Vitor Kilo Golf. Daqui Charlie Tango Dois Julieta Uniforme Oscar, a transmitir de Charlie Sierra Five Alpha Romeo Charlie", diz Luís Rabasquinho, ao rádio. Para quem está de fora do radioamadorismo, as conversas rápidas que são tidas parecem indecifráveis. Para além dos códigos que identificam a pessoa e a estação de onde se transmite, as comunicações muitas vezes são abreviadas.

"Os radioamadores têm a mania de encurtar as coisas e usar siglas", explica à agência Lusa Luís Rabasquinho. Abraço é "73". Beijo é "88". Se o sinal e perceção da transmissão estão bem diz-se apenas "Five and Nine [cinco e nove]" e quando há ruído, fala-se de "QRM".

A associação, com cerca de 50 sócios, apetrechada de antenas, vários rádios e computadores, faz comunicações para todo o mundo, transmitidas através de ondas hertzianas e que podem ser feitas em fonia, código morse ou em formato digital. Apesar de hoje haver internet, os radioamadores encontram magia numa prática que é como um regresso às brincadeiras com 'walkie talkies'.

Num momento, estão a falar com alguém de Tomar, noutro com um camionista português por Espanha, ou com um emigrante em França, alguém no Japão, na Mongólia ou em Itália.

Para o presidente da associação, Fernando Rosinha, o radioamadorismo conjuga o gosto pela comunicação e "pela eletrónica". Na cúpula, não se fazem apenas comunicações. É preciso "otimizar a estação ao máximo" e fazer alguma reparação que seja necessária de uma antena ou rotor.

Para além disso, participa-se em concursos, em que o objetivo é fazer o máximo de contactos possível num determinado período de tempo, aclara o presidente.

A maior parte das comunicações são breves. Os radioamadores identificam-se, ouvem a identificação do recetor e anotam tudo numa folha, inclusive o dia e hora do contacto, para depois validarem essa comunicação, com um postal enviado ao colega com quem comunicaram.

Apesar disso, também se fazem amigos naquilo que é "uma espécie de aldeia 'radioamadorística'". Em Portugal, "toda a gente se conhece" e surgem "amizades", mas também "mexericos", num mundo em que "a voz é o elo identificador", constata Gabriel Ferreira, radioamador há 15 anos, que chega a combinar cafés usando o rádio.

Para este técnico de cardiologia, aquilo que o leva a fazer radioamadorismo é "a conquista" de se comunicar com alguém do outro lado do mundo, "com um simples rádio, sem demasiada tecnologia" e onde apenas conta o "esforço e técnica" de cada um.

Álvaro Miranda, radioamador desde 1961, apresenta-se pelo seu indicativo: CT1 Zulu Rádio.

Longe vai o tempo em que "até um fio de secar a roupa dava para fazer de antena", os rádios eram "autoconstruídos" com ajuda de revistas americanas e o radioamadorismo tinha outra importância nas comunicações, afirma.

Nos mais de 50 anos de 'hobby', Álvaro já colecionou contactos com cerca de 150 países e até já estabeleceu comunicação com o antigo rei Hussein, da Jordânia, também radioamador.

Para o radioamador de 75 anos, as comunicações são como ir à pesca. "Vamos à frequência, vamos escutar, vamos correndo as bandas e olha: está aqui um. E é aí que fazemos o contacto com o país", conta, sublinhando que quando aparecem radioamadores de países mais raros "são 500 e 600 estações em cima deles a chamar" e aí há que "aproveitar o buraquinho certo para se fazer a comunicação. Quando não se ouve ninguém, manda-se a bicada".

Álvaro não se cansa dos contactos e da magia de um 'hobby' que lhe permite dizer que tem amigos "espalhados por todo o lado". Não lhes conhece a cara, mas conhece-lhes a voz.

Diário Digital com Lusa

Fonte:  https://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=815059